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Rosalind deixou uma luminária acesa, no quarto, junto ao sofá, abaixo do espelho; o interruptor está regulado para a luz fraca, e a lâmpada fornece menos claridade do que uma vela; está deitada de lado, encolhida, com as cobertas emboladas na altura da barriga e os travesseiros estão jogados no chão – sinais seguros de um sono conturbado. Ele a observa do pé da cama durante mais ou menos um minuto, esperando para ver se a perturbou, ao entrar. Ela parece jovem – seu cabelo tombou para frente, sobre o rosto, dando-lhe um aspecto desinibido, dissoluto.  Ele vai ao banheiro e se despe na penumbra, porque não quer se ver no espelho – a visão do seu rosto abatido podia desencadear uma reflexão sobre o envelhecimento, que acabaria por envenenar seu sono. Toma um banho de chuveiro a fim de lavar o suor da concentração e todos os vestígios do hospital – imagina o pó fino do osso do crânio de Baxter alojado nos porros da sua testa – e se ensaboa com energia. Enquanto se enxuga, nota que, mesmo na luz fraca, o hematoma em seu peito é visível e parece ter se espalhado, como uma mancha num pano. Porém dói menos, quando o toca. Parece, agora, uma lembrança remota, de meses antes, quando levou aquele murro e sentiu a penetrante crista de uma onda de choque penetrar seu corpo. Mais humilhação do que dor. Talvez devesse acender a luz, afinal, e examinar melhor.

Ian McEwan

// 23 de novembro de 2013 / 07:42 AM // CATS > books, Diário, inspirações, inspiration, Journal, livros // TAGS > + +
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Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão, 

Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido, 

Olho e contenta-me ver, 

Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. 

Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira. 

Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo. 

Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio, 

Aqui, acolá, acorda a vida marítima, 

Erguem-se velas, avançam rebocadores, 

Surgem barcos pequenos de trás dos navios que estão no porto. 

Há uma vaga brisa. 

Mas a minh’alma está com o que vejo menos, 

Com o paquete que entra, 

Porque ele está com a Distância, com a Manhã, 

Com o sentido marítimo desta Hora, 

Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea, 

Como um começar a enjoar, mas no espírito.

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// 30 de setembro de 2013 / 13:41 PM // CATS > books, Diário, inspirações, inspiration, Journal, livros // TAGS > + + + +

O comboio abranda, o Cais do Sodré.
Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão.
do Livro do Desassossego, num cartaz de picolé.

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// 11 de julho de 2013 / 13:30 PM // CATS > Diário, encontros, get-togethers, Journal, travel, viagem // TAGS > + + + + + +

Lançamento de três belos livros no sábado, dia 8 de dezembro, às 10h, na Quixote Livraria e Café.

> Rua Fernandes Tourinho, 274 Belo Horizonte

Infos completas e outros textos em: www.chaodafeira.com

// 5 de dezembro de 2012 / 08:12 AM // CATS > books, Diário, everyday, Journal, livros, todo dia // TAGS > + + +

Estar sentado num vagão de trem, esquecer disso e viver como se estivesse em casa. Mas de repente lembrar de onde se está, sentir a força do trem que nos transporta, transformar-se em viajante, tirar da mala um boné, tratar o companheiro de viagem com mais liberdade, deixar-se levar até a nossa meta sem esforço, sentir isso tudo como uma criança, tornar-se o favorito das mulheres, sentir-se incessantemente atraído pela janela, colocar ao menos uma das mãos no peitoril. 

A mesma situação, mais precisamente delineada: esquecer que se esqueceu, transformar-se num instante em uma criança que viaja sozinha num trem expresso, e em redor de quem o vagão, fremente de impaciência, se materializa em pormenores fascinantes, como se surgisse das mãos de um mágico.

Franz Kafka, 1917.

// 7 de novembro de 2012 / 20:03 PM // CATS > books, Diário, inspirações, inspiration, Journal, livros, travel, viagem // TAGS > + +
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