Estar sentado num vagão de trem, esquecer disso e viver como se estivesse em casa. Mas de repente lembrar de onde se está, sentir a força do trem que nos transporta, transformar-se em viajante, tirar da mala um boné, tratar o companheiro de viagem com mais liberdade, deixar-se levar até a nossa meta sem esforço, sentir isso tudo como uma criança, tornar-se o favorito das mulheres, sentir-se incessantemente atraído pela janela, colocar ao menos uma das mãos no peitoril.
A mesma situação, mais precisamente delineada: esquecer que se esqueceu, transformar-se num instante em uma criança que viaja sozinha num trem expresso, e em redor de quem o vagão, fremente de impaciência, se materializa em pormenores fascinantes, como se surgisse das mãos de um mágico.
Franz Kafka, 1917.
Sit in a train, forget the fact, and live as if you were at home; but suddenly recollect where you are, feel the onward-rushing power of the train; change into a traveller, take a cap out of your bag, meet your fellow travellers with a more sovereign freedom, with more insistence, let yourself be carried toward your destination by no effort of your own, enjoy it like a child, become a darling of the women, feel the perpetual attraction of the window, always have at least one hand extended on the window sill.
Same situation, more precisely stated: Forget that you forgot, change in an instant into a child travelling by itself on an express train around whom the speeding, trembling car materializes in its every fascinating detail as if out of a magician’s hand.”
Franz Kafka, 1917.